VERÃO SOMBRIO
L. despeja memórias nos bolsos do macacão. Dá alguns passos e não sente muita diferença. L. achou que as memórias seriam mais pesadas. Ela não sabe que seus bolsos têm furos profundos.
Caminhando, L. gosta de observar as formigas na grama, de encurvar o corpo para olhá-las de perto. Não se deita, porque o mato pinica a pele. Queria uma toalha de piquenique, daquelas clássicas quadriculadas, para se deitar sobre o solo quente e macio. Deitada na sombra, poderia olhar para o céu e observar as nuvens, embalada pela quentura da terra.
Numa mesinha, L. dispõe tampas de refrigerante em equilíbrio, na lateral, para apostarem corrida. Elas podem ser brancas, verdes ou vermelhas. Elas deslizam por um tempo até tombarem para o lado. São os fins das férias de verão. Sabe, porque é aquela passagem entre um calor insuportável e um calor mais tolerável. Sabe pela camada excessiva de protetor solar em suas têmporas. É o tempo dos insetos e das alergias.
Não sei minha idade de criança, sussurra L., os acontecimentos se misturam, coloridos. Não sei que idade tenho sob o sol púrpura, mas posso voar se quiser. Basta querer.
Certo dia, uma aranha diz a L. que há vãos que ela não desconfia. L. não sabe o que são vãos. A aranha traz para L. um dicionário. Vão. Espaço vazio; vácuo. Espaço aberto para entrada de ar e luz. Sertão alto, descampado. Ilusório, fútil, tolo.
As outras crianças não gostam muito de brincar com L. e ela tampouco gosta de brincar com as outras crianças. L. só entende a linguagem dos animais pequeninos, das plantas e dos fungos. L. passa a ler o dicionário que a aranha lhe trouxe. Junta palavras divertidas para criar poeminhas sonoros e livres de sentido. L. não entende a necessidade do sentido. A aranha diz a ela que o ser humano inventou o sentido para viver em comunidade. A cultura é uma rede de significados. São os sentidos que eles inventam – nada precisa ser do jeito que é. Então por que é? A aranha não sabe responder.
L. acredita na aranha, porque ela entende tudo de teias e aracnídeos nunca falam sem ter razão. L. não gosta do sentido ou da cultura. Quer viver num mundo inventado, mas de outra maneira. Um mundo outro, que faça mais sentido para ela. Pergunta por que o um é um e o dois, dois. A aranha responde que são os nomes inventados para as coisas. Mas então eu poderia chamar as coisas por outros nomes. Poderia, mas ninguém ia te entender, explica a aranha. L. não sabe se quer ser entendida.
L. copia palavras a esmo que ouve na televisão de tubo e depois vê que tipo de histórias elas podem formar. O mundo é uma bolota estranha e ela está ali sem ter pedido ou sido ouvida sobre todas aquelas regras. L. observa a teia que a aranha vai tecendo. As suas teias são fininhas, translúcidas, e brilham quando transpassadas pelo sol.
Mas a borboleta discorda de tudo. Para ela, viver é efêmero, uma busca frenética por não sei o quê. Sabe-se lá. Há muitas cores e viver pode ser então as cores. Não há motivo para complicar tanto. Mas e a cultura? E as teias e fios e...? A borboleta não chega a ouvir, já distante em seu voo cambiante.
A mariposa, por outro lado, é mais pensativa. Com frequência, descansa sobre um galho ou uma folha, sem pressa de voar. Ela diz para L. que a sua vida como lagarta havia se liquefeito e refeito – que ela não guarda memórias, mas apenas traumas. Diante da testa listrada da menina, ela continua. O trauma é um medo que existe no corpo, mas não na consciência. Para a mariposa, viver não tem nenhum sentido. Ela busca a luz, mas não se alimenta, e esqueceu o sabor das folhas de quando era lagarta. L. então coloca as mãos nos bolsos e, passando os dois dedos pelos buracos, nota que perdeu suas memórias. Ela também não se lembra de mais nada.
Eu também perdi minhas memórias. Mas com certeza você guarda os traumas, assegura a mariposa. L. pergunta se a mariposa e a borboleta não são iguais. Não, somos muitas e todas diferentes. A borboleta deste tipo vive muito pouco, a vida não chega a se questionar ou perceber. Apenas passa. Os seres que não se questionam são os mais felizes. L. diz que seus bolsos não guardam mais nada, que havia sobrado somente o vazio. É o destino, a mariposa conclui sem dizer. É o nosso destino.
L. busca no dicionário o trauma, mas nada assegura onde ele possa estar. Trauma do grego traûma, ferida, derrota, avaria, desastre, traumatismo, violência.
Ela mostra para a mariposa o dicionário. A mariposa sussurra que há uma racionalidade na aranha que é inútil, que não é para L. prestar atenção. Todo o mundo é o seu mundo. Não se preocupe com o dicionário, invente o mundo. Mas L. está com os pés mais e mais presos no mundo, ainda que quisessem o tempo todo jogá-la para fora do mundo. Não acho que a terra vá me engolir, explica L., acho que ela quer me arremessar para fora. Então você viveria no espaço. Sim, mas tenho medo. L. tem pavor de lugares fechados e para ela o espaço não é a imensidão, mas a clausura de uma espaçonave lançada no abismo.
Sim, mais tarde diz a aranha, não planejaram bem este mundo para caber em você, como uma calçola grande demais. É importante que você leve o dicionário sempre junto de si, embaixo do braço. Papel, lápis e o dicionário. A aranha e a mariposa não gostam muito uma da outra. Há muita selvageria também nos pequenos seres.
Nos estágios de uma borboleta, depois da lagarta, há o casulo. Antes, há o estado larval. Você é uma pequena ninfa, uma larva. Ainda não deu tempo de abocanhar, engordar e fazer o seu ninho.
L. pergunta à aranha se é verdade que aranhas comem borboletas. A aranha hesita por um momento e depois responde que come muitas coisas. L. descobre que há peixes que comem peixes e gente que come gente. Ama e teme a aranha, que em sua teia ela possa comer a mariposa, a borboleta ou ela própria. Ama tanto a aranha que talvez desse o próprio corpo de bom grado a ela. Talvez seja agradável se deixar amarrar em suas teias.
L. descobre que as pessoas temem insetos e aracnídeos. Dizem são nojentos. Ela segura firme as próprias mãos, ódio escarlate. Mas a boca fica calada, inerte, incapaz de dizer. Algumas crianças também têm medo de L. Dizem que seus olhos são sorriem quando a boca sorri. L. não sabe o que fazer para sorrir com os olhos. Pergunta se não seria então um inseto. Mas garantem que, pior, ela com certeza é uma menina.
O dicionário é uma busca sem fim em que um verbete leva a outro verbete e assim por diante.
Há uma novidade em todos os seres. L. não vê rostos, mas ainda não sabe que os outros podem vê-los. Pode ver um velho ou uma criança e no outro momento já esqueceu como eles são. Faz esforço para ver dentro de sua cabeça as caras das pessoas, mas tudo que vê é um borrão e eventualmente um olho, uma sobrancelha ou um nariz. Não consegue juntar os pedaços para formar um ser humano. Rostos talvez sejam uma memória que L. perdeu.
Os cheiros, sim, estão ali. Mas o olfato de L. não é bom. Ela apenas consegue identificar os odores mais desagradáveis. Às vezes são cheios que vêm de lugar nenhum, inventados. Mas que estão ali, ela sabe.
Certa manhã levam L. à praia. Ela quer gostar, mas o sol queima e arde, a areia se entranha na sola dos pés, nas unhas, sob o maiô, e a água gélida faz o corpo inteiro tremelicar. O calor é desconfortável e dá muito sono. L. fica sob a enorme barraca com o dicionário. L. dorme e sonha que o mar é agradável e não há texturas, luzes e sons. É um sonho dentro de um sonho. Ela se põe a nadar e flutua sob a imensidão de um céu suave e inofensivo.
L. não é capaz de perceber que a aranha já teceu teias que encobrem toda a casa. L. não conhece outras aranhas. Ela pergunta se todas as aranhas são iguais. A aranha diz que não, que há aranhas e aranhas; que ela é uma aranha confiável, mas não se pode confiar em todas as aranhas.
No dicionário, o verão. Estação mais quente do ano, situada entre a primavera e o outono. L. pergunta quando termina o verão. A mariposa diz que por ali o verão não termina nunca. É verdade que sou uma menina. Sim, é verdade. Pelo menos você não é um pássaro. Os pássaros são inimigos dos insetos e aranhas, todo mundo sabe disso. L. gosta dos pássaros em segredo.
É verão, mas os dias se tornam cada vez mais silenciosos.
Um dia a mariposa vai embora sem dizer adeus. Não se importe com isso, diz a aranha, não é possível confiar em lepidópteros, diurnos ou noturnos. Todos são, de um jeito ou de outro, os mesmos, avoados e dispersos. L. chora sem saber por que foi abandonada pela mariposa. A aranha garante que não irá abandoná-la. Afinal, a aranha vai se tornando cada vez mais gorda, e suas teias cada vez mais profundas. Não há mais mariposas, borboletas, moscas ou mosquitos. L. tem medo de esquecer. Pede que a aranha costure seus bolsos, mas o vazio preenche tudo.
L. não sabe mais acordar.




